Tathiana Pedroso's Blog

pensamentos, educação e arte

Educar para o aprender… 27 de março de 2011

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Imagens… 7 de novembro de 2009

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Pensamentos cerâmicos…

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” Para essas crianças a experiência na modelagem em argila tem uma importância singular na retomada do desenvolvimento motor, criativo e, sobretudo emocional. O trabalho na oficina de cerâmica exige do estudante a elaboração de um projeto, a iniciativa em arriscar-se na sua execução, a flexibilidade de aprender com os erros, a perseverança nas tentativas, a aceitação dos elementos e ocorrências fora de seu controle, sem falar na necessária cooperação entre os membros do grupo para atingirem os melhores resultados. É um tipo de ‘vivência-metáfora’ de lição de vida, combinando atitudes práticas e considerações filosóficas.”

David Cowlei, professor de cerâmica do Goldsmithis College em Londres. (Cowlei,1995:115)

autorretrato na argila

autorretrato na argila

Gostaria de compartilhar uma experiência com uma turma muito difícil que tive em 2007. Eram alunos do quarto e quinto ano de uma escola municipal de São Paulo. No primeiro dia que entrei na escola fiquei muito assustada: muitas grades e gritarias pelos corredores. No meu primeiro encontro com a turma estava ansiosa. Fiquei esperando no corredor a coordenadora pedagógica trazer a turma. Para meu espanto todos estavam em fila, com seus corpos rígidos e um sorriso preso no rosto. Ao entrarem na sala, fora dos olhos da coordenadora, a situação mudou: pulavam nos colchonetes, gritavam, se chutavam e batiam uns nos outros. Foi assim até o final do curso com intensidades diferentes.

Tudo era novidade! A sala não tinha carteiras enfileiradas, sentávamos em almofadas e colchonetes, tinha computador, uma prateleira cheia de materiais artísticos (tintas, pincéis, folhas coloridas, canetinhas, lápis de cor, giz pastel e de cera). Além das fantasias, bola de yoga e mini-trampi. Fazíamos roda de conversa onde eles tinham a liberdade de se posicionarem. E uma professora que tinha outra abordagem com eles, possibilitando a expressão, a  liberdade consciente e a reflexão. Me lembro que em uma das rodas de conversa os alunos contaram que faziam bagunça porque não tinham nada para copiar da lousa. E realmente a calma, a tranqüilidade e o silêncio somente apareciam quando eu escrevia tudo o que tínhamos feito (ou iríamos fazer) no dia (rotina do dia) para refletirmos sobre o processo e eles copiavam.

A minha energia empregada para elaborar algo diferente e que mexesse com o sensível de cada um era enorme. Utilizei todos os recursos do ateliê e ficava com a impressão de que nada resolvia.  A agressividade entre eles e comigo era enorme. Conversando com minha coordenadora na época, a querida Laura Dantas, pensamos em um trabalho com a argila. Preparei a aula com todo cuidado, deixei toda argila cortada em tamanhos iguais, mesas forradas com plástico e cada lugar na mesa arrumado com todo cuidado e carinho. Quando eles entraram na sala e viram a argila ficaram espantados por não saberem o que era. Eles nunca tinham visto argila! Todos sentaram com os olhos cheios de expectativas. Falei tudo sobre a argila, do que era feita, como que trabalhava e mostrei muitas imagens de trabalhos feitos por crianças e artistas. O silêncio, a atenção e a curiosidade era impressionante. Um dos alunos disse que pensou ser um tijolo de maconha e me perguntou até se eu fazia tráfico, outros lembraram de cocô. Queriam colocar a mão para sentir a textura e as possibilidades possíveis de trabalhar com esse material. Fiz um ritual: pedi para fecharem os olhos e coloquei um pedaço na frente de cada um. Quando abriram os olhos colocaram a mão e se deliciaram. Toda a agressividade passou para o material. Amassavam, gritavam, jogavam a argila na mesa com toda força que tinham. Uma hora nesse ritmo. Me sentei na cadeira pela primeira vez e fiquei observando. Nunca tinha conseguido sentar e observar! Meus sentimentos eram muitos e meus olhos se encheram de água. Percebi um mundo novo. Vi crianças gritando, pedindo para serem crianças e, ao mesmo tempo, as crianças brincando com um brinquedo novo ou descobrindo algo prazeroso. O desconhecido é onde está o maior aprendizado.

Na outra aula mais argila, mas agora com uma atividade dirigida. A proposta do exercício era a investigação do rosto sem a ajuda do reflexo do espelho. Com o tato, eles iriam sentir e medir, da forma que fosse possível, e tentar transpor seu rosto para a argila. Poucos autorretratos foram produzidos. Surgiram imagens infantis que no momento foram muito mais ricas do que a proposta. Fizeram barcos, máquina fotográfica, corações, cesta de doces, quarto de boneca, filmadora e microfone. Começaram a brincar com os trabalhos; as meninas de casinha, os meninos de bolinas, barcos e personagens fantásticos. E para registrar tudo isso o aluno que produziu a máquina fotográfica tirava fotos e outro filmava enquanto uma aluna fazia entrevistas com seu microfone (“Você está gostando da aula?”) Qualquer pessoa grande que entrasse na sala naquele momento poderia pensar que não estava tendo aula e que a professora estava sem controle da sala. Mas essa aula foi a mais importante das nossas vidas e estava cheia de felicidade dentro de um  mundo-mágico-lúdico-vivo.

Passamos por todos os processos de um trabalho com argila. Na outra aula chegaram e foram direto ver seus trabalhos secos. E para espanto deles, algumas peças estavam rachadas e quebradas. A reação foi impressionante: começaram a fazer “guerrinha” com os trabalhos. Não conseguia controlá-los. Somente depois que as peças estavam despedaçadas no chão consegui organizar uma roda de conversa. Eles não estavam preparados para as ‘ocorrências fora do controle’. Foi nesse momento que consegui passar algumas técnicas e proporcionar uma reflexão sobre o processo pessoal. Não abandonei a argila com essa turma e cada vez mais as produções estavam cuidadas, projetadas e respeitadas.

Realmente, o essencial é invisível aos olhos…


 

 
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